• Inês Rioto

Idosos LGBTI contam o desafio de envelhecer em meio ao preconceito


Aos 61 anos e vivendo sozinho em uma pensão em São Paulo, o carioca José Marcos Dupim diz não ter medo da solidão e que aprendeu a lidar com a danada “na força”, após anos morando sem a companhia de familiares ou amigos. Com leucemia e câncer de próstata desde 2012, ele conta que, nos últimos anos, passou a sofrer com a intolerância ao envelhecimento, além do preconceito que já sofria por conta de sua sexualidade.

— A população LGBTI mais velha sofre muito preconceito, principalmente de forma velada. Aquela coisa sutil, da piadinha. Se tem um evento em família, ninguém me chama. Depois que fiquei doente, ficou ainda pior. Alguns amigos LGBTIs também se afastaram — conta o aposentado.

Para Dupim, há resistência em se falar sobre envelhecimento LGBTI mesmo na própria comunidade. Quase ninguém quer tocar no assunto.

Assim como ele, especialistas, médicos e ativistas afirmam que o envelhecimento de pessoas LGBTI no país é invisível, pouco debatido ou valorizado. Faltam dados, há desconhecimento por parte de profissionais de saúde, não existem políticas públicas específicas. Essa população, ao envelhecer, está mais suscetível à solidão e a algumas doenças, como o câncer.

— Há medo de discriminação e falta de confiança nos serviços de saúde. Idosos LGBTIs evitam ir ao médico ou só vão em último caso — diz o geriatra Milton Crenitte.

Ele chama a atenção para o fato de que a sexualidade precisa ser informada pelo paciente ao profissional de saúde. Isso faz com que medidas como vacinas e exames não deixem de ser tomadas e haja um controle maior sobre doenças crônicas e depressão. De acordo com Crenitte, que é médico na unidade de cardiogeriatria do Instituto do Coração (InCor), “estar no armário” traz uma série de complicações:

— Interfere na autonomia, em uma sociedade que já não valoriza a velhice.

A sexualidade vai além do ato sexual, engloba também a conexão emocional. Reconhecer os laços construídos ao longo da vida, as “famílias de escolha”, pode fazer toda a diferença. O que Crenitte sugere é o debate sobre medidas como procurações oficiais relacionadas a cuidados de saúde para que, legalmente, se a pessoa ficar incapaz, tenha como responsável quem sempre esteve ao seu lado.

A inexistência de filhos ou o abandono da família fazem com que aumentem as chances de não se ter alguém em caso de emergência. Evidência da solidão na fase final da vida.

A falta de debate sobre o assunto no Brasil é marcada também pela ausência de dados. Como não há informações sobre orientação sexual nas consultas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), não é possível saber quantos idosos LGBTIs existem no país, o que dificulta a formulação de políticas públicas. É uma população que acaba marginalizada, aponta o psicólogo Ludgleydson Fernandes de Araújo.

— Como uma idosa trans pode se aposentar se nunca teve um trabalho formal? Aumenta a probabilidade de depressão e ansiedade — diz Araújo, professor da Universidade Federal do Piauí.

No entanto, o estigma, diz o o psicólogo, já pode ter sido pior. Os idosos de hoje foram jovens em uma época de censura no país, o que teria dificultado a possibilidade de expressarem livremente sua sexualidade. E só em 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) tirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. Assim, muitos idosos temem terem que “voltar para o armário” como forma de proteção.

— Muitos vivem sozinhos por não se sentirem acolhidos não só em suas famílias, mas também em instituições de longa permanência. Isolar-se acaba sendo a alternativa para viver com mais liberdade a sexualidade — afirma Araújo.

Acolhimento em ONG

Para tirar o tema da invisibilidade e garantir melhor qualidade de vida aos LGBTIs que se aproximam da terceira idade, é fundamental inserir a temática na formação de profissionais de saúde. E discutir mais inclusão em ambientes de promoção de saúde, como hospitais e instituições de longa permanência, destaca Crenitte. Faltam ambientes de convivência para este público.

Percebendo a lacuna, foi criada no ano passado uma das únicas ONGs do país voltadas ao acolhimento de pessoas LGBTIs idosas, a EternamenteSOU (eternamentesou.org). Com sede em São Paulo, ela promove oficinas, qualificação para profissionais de saúde,atendimento psicológico e jurídico e eventos de debate e conscientização.

— Aqui eles são o que sempre foram, sem precisar se esconder — diz Rogério Pedro, presidente e idealizador da ONG, que pretende ampliar sua atuação.

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Plenitude Ativa/Inês Rioto

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