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Como reduzir o risco de declínio cognitivo e demência. Kalache - Viva a longevidade - Brade


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Por que todos, independentemente da idade, devemos começar a nos preocupar agora com esse grave problema de saúde pública

16/07/2019 - por Alexandre Kalache

Quando falamos de demência e declínio cognitivo, não há dúvida de que estamos diante de um desafio crescente para a saúde pública. Conforme disse na coluna passada, esse foi o foco do Dementia Forum X, realizado em Estocolmo, na Suécia. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um documento sobre como reduzir ou postergar o declínio cognitivo e o risco de demência.

Atualmente, 10 milhões de novos casos de demência são diagnosticados a cada ano no mundo — e esse número triplicará até 2030. No Brasil, onde hoje 1,4 milhão de pessoas vivem com demência, a cifra chegará a 6 milhões em 2050. O diagnóstico clínico preciso de um quadro demencial é difícil, por isso estou me referindo a “pessoas que vivem com demência”, sem definir se é Alzheimer ou se a causa é outra.

Vale lembrar que as pessoas vivendo com demência são adultos hoje. E que, dos atuais 28 milhões de brasileiros com mais de 60 anos, teremos 67 milhões em 2050 (e 78 milhões em 2065). Ou seja, tudo o que puder ser feito para diminuir o risco de declínio cognitivo e demência de quem já atingiu a idade adulta terá imenso impacto nas próximas décadas. Você que agora me lê pode ser um dos beneficiados.

Há outro aspecto importante. Em 1940, em cada mil brasileiros com 65 anos, apenas 25% esperavam chegar aos 80, idade que marca o aumento acentuado de risco de declínio cognitivo e de demência. Hoje, mais de dois terços dos brasileiros que chegam aos 65 anos esperam viver até os 80.. No Brasil, o subgrupo da população que mais crescerá nas próximas cinco décadas é o dos 60+ e, dentro deste grupo, o de 80+.

A demência é uma condição devastadora não só para quem dela padece, mas para todo o núcleo familiar e comunitário, que provê cuidado por anos. Seu impacto não é apenas social, mas também econômico: a OMS projeta seu custo global em US$ 2 trilhões em 2030.

Já que não dispomos ainda de tratamento curativo para as formas mais comuns de demência (a principal delas é o Alzheimer), a OMS convocou, em 2017, todos os países a desenvolver planos de ação em resposta a esse desafio. Um dos pilares desses planos é a redução do risco de declínio cognitivo.

A boa notícia é que já sabemos muito sobre como diminuir o risco de demência, seja qual for sua causa, os fatores de risco em grande parte se superpõem aos das doenças crônicas mais comuns, como hipertensão, diabetes, sedentarismo, obesidade, álcool, tabaco.

As diretrizes da OMS estão fundamentadas em evidência científica e pregam que podemos intervir para, se não evitar por completo o declínio cognitivo, ao menos postergá-lo. Suponha que em vez de você começar a ter um quadro demencial aos 75 anos ele seja retardado em dez anos. Isso significa uma década a mais de vida independente e com maior qualidade.

Bom para o coração, bom para o cérebro

As diretrizes da OMS também enfatizam a importância de mudar nosso estilo de vida, mas alertam para não simplesmente culparmos as vítimas. Milhões de brasileiros vivem em condições extremamente precárias. Não basta saber que é necessário aumentar o nível de atividade física; é preciso também dispor de facilidades, ter acesso a espaços públicos seguros e acessíveis, transporte público adequado, ruas e parques bem iluminados.

Por outro lado, uma dieta saudável pode não ser economicamente viável. É preciso que medidas legais e tributárias façam das opções mais saudáveis as mais acessíveis. Medidas assim, junto a campanhas de saúde pública, já foram cruciais para uma conquista sanitária em nosso país, muito decantada internacionalmente, e pouco valorizada entre nós: o controle do tabagismo.

Hoje, menos de 10% dos brasileiros adultos fumam. Há 30 ou 40 anos, a porcentagem era próxima a 50% entre os homens de 18 a 50 anos, e o hábito estava ascendente entre as mulheres, ainda que, então, menos de 20% delas fumassem.

O que prevalece é a ênfase no curar, e não em prevenir e cuidar

Isso mostra a importância de políticas públicas – e essa é uma mensagem central das diretrizes da OMS que discutimos nesta coluna. Elas são de imensa importância para um país que ainda não dispõe de uma Política Nacional para lidar com demências – ao contrário de inúmeros outros países, inclusive na América Latina, como Chile, Cuba, México e Uruguai. Nossa Política Nacional de Saúde é insuficiente para fazer face ao desafio do envelhecimento e deficitária na aplicação.

O que prevalece é a ênfase no curar, e não em prevenir e cuidar. Atribui-se à família a responsabilidade de cuidar das pessoas que vivem com demência. No entanto, com fatores como menos filhos, famílias fragmentadas e moradias precárias, o que mais falta é uma política de apoio à família para que ela possa exercer esse papel.

Ainda há tabu e estigma em relação à demência, não só dos profissionais, mas da sociedade em geral. Onde há desconhecimento, há preconceito e discriminação — e a consequente falta de recursos, políticas e ações.

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Plenitude Ativa/Inês Rioto

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